quarta-feira, 27 de julho de 2011

JOGO DE CENA

Nesta quarta, a partir das 20:00, teremos mais um Jogo de Cena no Teatro da Caixa. Para quem não conhece, o Jogo de Cena é um espetáculo já tradicional aqui de Brasília, onde são apresentados trechos de peças de teatro, de shows musicais e outras expressões artísticas. Neste Jogo de Cena em especial, minha esposa Wal Andrade é a artista convidada, e estará pintando um quadro durante as duas horas que durar o show.

Vejam o programa completo em
http://www.jogodecena.com.br/site/jogodecena/programa/

alexandre.lobão

terça-feira, 26 de julho de 2011

Vaga lembrança

Roberto de Carvalho Vivas
Servidor aposentado – Rio de Janeiro - robertovivas@bcb.gov.br

RIONET


Ninguém pode duvidar que o dicionário perdeu a identificação de “pai dos burros” para o Google, que ensina muito mais que sinônimos. E com tanta informação lá guardada, todos temos agora um espaço vago na memória, com uma única mensagem pulsando “Esqueça! Tem no Google”!
Até há bem pouco tempo, entre nossos parentes, amigos ou colegas, havia sempre um cara erudito, de memória privilegiada, que respondia a tudo “de cabeça”, sem qualquer consulta. Geralmente era identificado – ou apelidado – como Professor Pardal ou coisa parecida. Nas épocas de prova, era difícil encontrar lugares vagos ao seu lado na sala. Aqui no BC, não raro, eram fonte de consultas dos demais: “Qual é mesmo a circular que trata disso”?... À pergunta do “como conseguia”, ele brincava “Antes de dormir, leio sempre uma resolução e uma circular do BC”.
Hoje não há mais necessidade de demonstrarmos nossa ignorância, ou a preguiça. Tudo fica disponível, em segundos, a partir de um celular, iPad, iPhone, notebook, etc.: resoluções e circulares do BC, números de telefones, trajeto de ruas, afluentes da margem esquerda do rio Amazonas, receita do bolo da vovó, como fazer barquinhos de papel ou a divertida cama de gato de barbante.
Para aqueles que tem mais de 50 anos, isso é um alívio. Chega justamente na hora em que os episódios de exercício de memória começam a nos deixar encalacrados. E como sempre há espertos para tudo, na rua - nas imediações do BC mesmo – devemos ficar atentos com a frase “Ôôôô, quanto teeempo!”, se partir de alguém que portar uma pasta grande. É que já há uma técnica de venda com abordagem de pessoas cuja aparência denotam pouca memória ou muita idade. E depois da pergunta inicial, o objetivo de parar-nos é conseguido, com nossos neurônios procurando a identificação da pessoa. Vem então um chororô “Estou em dificuldades e vendendo umas coisinhas. Não quer ajudar o antigo amigo”?
Melhor forma de um bom uso dessa memória, seria imaginarmos o que Google não pode guardar. As fases da cama de gato de barbante – cujo nome nunca entendi – estão lá, mas não o sentimento gostoso das risadas ou mesmo da irritação dos filhos pequenos, diante do erro na brincadeira. Também os movimentos das mãos para formar a sombra de bichos na parede estão lá, mas não que a brincadeira ocorria diante da vela acesa trepidando, ante a falta de luz, e que a chama tornava o ambiente meio fantasmagórico, o que causava um certo medo nas crianças. E a lembrança do cheiro e do sabor gostoso do bolo quentinho da receita da vovó, recém-saído do forno?... Não tem no Google!
Dizem sabiamente os vascaínos “o sentimento não pode parar”! E é ele que a web nunca vai guardar. Cabe-nos ocupar o espaço liberado pelas modernidades, preservando e repassando para filhos, netos e coleguinhas deles os prazeres e as sensações maravilhosas do convívio familiar saudável e constante, seja através de uma brincadeira tradicional, seja de um momento de oração, seja assistindo um filme, etc., etc. Pela preservação da “vaga lembrança”, porque o resto tem no Google!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Colunista da RIONET tem texto escolhido



O texto "Dois amigos" de, Mario Marcio Damasco, colunista da Rionet, foi escolhido para fazer parte do livro “68 - A geração que queria mudar o mundo – relatos”. A publicação é fruto do esforço coletivo em favor da luta contra o esquecimento daquele que foi um dos períodos mais deploráveis da história brasileira e insere-se no projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Prestaram depoimentos nomes como o de Milton Coelho da Graça, Arthur Poerner, Maria Lucia Dahl, Norma Bengell e João Otávio Goulart Brizola.

"Além de mim, apenas dois outros colegas se interessavam, de longe, pelo assunto. Lá uma vez ou outra conversávamos a respeito. Influenciados pelos pais, eles acreditavam, sem embasamento ou convicção, nas boas intenções da recém instalada “revolução”.

Desde o início e com maior intensidade em 1965, tentei alertar-lhes para a truculência de um movimento que “regulamentava’’, através da força, a violência das suas atitudes. Contudo, eles se recusavam a acreditar.

Nesse ano, três acontecimentos foram sintomáticos.

Em uma noite, esses dois amigos me acompanharam até colégio. Fazíamos “hora” na entrada, quando vimos chegar, de braços dados, o diretor e a sua esposa. “Cantando pneus”, surgiu, no início da rua, um jipe recheado de policiais. Separaram, com brutalidade, o casal. Algemaram o homem e jogaram-no dentro do jipe. Meus dois amigos não me encararam, apenas se entreolharam em silêncio. O diretor, homem estimado e reconhecido na cidade e que pertencia a um partido de esquerda, foi preso e destituído do cargo, sob a alegação de ser um perigoso “comunista comedor de criancinha”.

Sob nossas vistas, a caminhonete do DOPS, parou em frente ao sindicato dos metalúrgicos. Os policiais invadiram o prédio e quebraram tudo à procura do presidente, que não se encontrava. Após alguns minutos, calmamente, surgiu o presidente do sindicato. Foi preso e algemado como um perigoso “agente vermelho”. Ele não fazia parte do nosso convívio, mas, sabíamos que era um correto e pacato cidadão. Quem sabe, apolítico? Novamente, os dois não tiveram condições de me encarar.

Salão de sinuca no centro de Friburgo. Um desses meus amigos ganhou uma disputa a dinheiro de um policial do Dops de revólver à mostra. O sujeito não se conformou. A confusão se estabeleceu. O policial empunhando a arma, acintosamente, ameaçou a todos. Sem outro jeito, fomos embora. O meu amigo desabafou:

- “Depois dessa maldita revolução, qualquer policial de merda virou autoridade!”.

Aprovados no vestibular no início de 1966, os dois amigos mudaram-se para Niterói.

No primeiro final de semana de abril de 2007 estavam em Friburgo. Na noite de sábado, a turma estava reunida. Percebendo que eles apresentavam escoriações pelo corpo, não resisti e perguntei o que aconteceu.

- “Esses são os ”prêmios” oferecidos pelos militares pela nossa participação nos protesto pela invasão do restaurante do “calabouço” e pela morte do Edson Luis, aquele estudante de 17 anos...”, responderam.

E depois, me olhando no fundo dos olhos, completaram:

“Tomamos muita porrada, mas enfrentamos aqueles brucutus. Estamos de alma lavada! Faltou você! Mesmo apanhando, você ia se realizar! Igual a gente!”.”

sexta-feira, 22 de julho de 2011

LANÇAMENTO DE LIVRO



A Livraria LDM e a Escrituras Editora
convidam para o lançamento do livro


Sangue
Novo




21 poetas baianos do século XXI

Organizado por José Inácio Vieira de Melo



Sábado, 23 de julho, das 10h às 14h, na Livraria LDM.
(Rua Direita da Piedade, 22. Próximo ao Banco do Brasil e à Secretaria de Segurança Pública)

Outras informações:
71 21018007
eventos@livrariamulticampi.com.br



Sangue Novo é um projeto encabeçado pelo poeta José Inácio Vieira de Melo com o intuito de divulgar novos autores, entrevistando-os e publicando alguns de seus poemas, a serem reunidos, posteriormente, num único livro. Aqui podemos acompanhar as atualizações dos blogs de alguns desses poetas, além de postagens relacionadas à poesia.

“No tempo e pelos tempos, os poetas têm conduzido o fogo sagrado da linguagem que inaugura o ser. No tempo e pelos tempos, os poetas passam, de mãos em mãos, de geração a geração, a tocha da chama da poesia. Essa renovação acontece com a chegada dos novos vates, aqueles que crescem experimentando o borbulhar da criação através do signo verbal, através da palavra que transforma seu próprio sentido e os sentidos de quem a absorve. A coletânea “Sangue novo – 21 poetas baianos do século XXI” cumpre a missão de manter a chama acesa. Não por um dever cívico, mas porque cada um dos poetas tem em si a poesia como um imperativo existencial. Claro que o estradar destes artistas da palavra está apenas começando, mas todos já estão no caminho, todos já estão embrenhados no labirinto da linguagem. Cada qual, à sua maneira, trilhando as searas que mais lhe apetecem e, aos poucos, descobrindo como palmilhar por essas veredas de encantos e de estranhamentos. Desejo, para os 21 condores, condutores da chama da poesia, que seus versos ganhem asas e que suas vozes ecoem na amplitude de cada leitor”.



JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Relação dos 21 poetas:

Alexandre Coutinho
André Guerra
Bernardo Almeida
Caio Rudá de Oliveira
Clarissa Macedo
Daniel Farias
Edson Oliveira
Érica Azevedo
Fabrício de Queiroz
Gabriela Lopes
Georgio Rios
Gibran Sousa
Gildeone dos Santos Oliveira
Janara Soares
Lidiane Nunes
Priscila Fernandes
Ricardo Thadeu
Saulo Moreira
Vânia Melo
Vanny Araújo
Vitor Nascimento Sá

danielfarias.art.br
(11) 8154-5266 - tim (71) 8843-4248 - oi



quinta-feira, 21 de julho de 2011

ELOGIE DO JEITO CERTO



rodrigo.paula
Recentemente um grupo de crianças pequenas passou por um teste muito interessante. Psicólogos propuseram uma tarefa de média dificuldade, mas que as crianças executariam sem grandes problemas. Todas conseguiram terminar a tarefa depois de certo tempo. Em seguida, foram divididas em dois grupos.
O grupo A foi elogiado quanto à inteligência. “Uau, como você é inteligente!”, “Que esperta que você é!”, “Menino, que orgulho de ver o quanto você é genial!” ... e outros elogios à capacidade de cada criança.
O grupo B foi elogiado quanto ao esforço. “Menina, gostei de ver o quanto você se dedicou na tarefa!”, “Menino, que legal ter visto seu esforço!”, “Uau, que persistência você mostrou. Tentou, tentou, até conseguir, muito bem!” ... e outros elogios relacionados ao trabalho realizado e não à criança em si.
Depois dessa fase, uma nova tarefa de dificuldade equivalente à primeira foi proposta aos dois grupos de crianças. Elas não eram obrigadas a cumprir a tarefa, podiam escolher se queriam ou não, sem qualquer tipo de consequência. As respostas das crianças surpreenderam. A grande maioria das crianças do grupo A simplesmente recusou a segunda tarefa.
As crianças não queriam nem tentar. Por outro lado, quase todas as crianças do grupo B aceitaram tentar. Não recusaram a nova tarefa.
A explicação é simples e nos ajuda a compreender como elogiar nossos filhos e nossos alunos. O ser humano foge de experiências que possam ser desagradáveis. As crianças “inteligentes” não querem o sentimento de frustração de não conseguir realizar uma tarefa, pois isso pode modificar a imagem que os adultos têm delas. “Se eu não conseguir, eles não vão mais dizer que sou inteligente”. As “esforçadas” não ficam com medo de tentar, pois mesmo que não consigam é o esforço que será elogiado.
Nós sabemos de muitos casos de jovens considerados inteligentes não passarem no vestibular, enquanto aqueles jovens “médios” obterem a vitória. Os inteligentes confiaram demais em sua capacidade e deixaram de se preparar adequadamente. Os outros sabiam que se não tivessem um excelente preparo não seriam aprovados e, justamente por isso, estudaram mais, resolveram mais exercícios, leram e se aprofundaram melhor em cada uma das disciplinas. No entanto, isso não é tudo.
Além dos conteúdos escolares, nossos filhos precisam aprender valores, princípios e ética. Precisam respeitar as diferenças, lutar contra o preconceito, adquirir hábitos saudáveis e construir amizades sólidas. Não se consegue nada disso por meio de elogios frágeis, focados no ego de cada um. É preciso que sejam incentivados constantemente a agir assim. Isso se faz com elogios, feedbacks e incentivos ao comportamento esperado. Nossos filhos precisam ouvir frases como: “Que bom que você o ajudou, você tem um bom coração”, “parabéns meu filho por ter dito a verdade apesar de estar com medo... você é ético”, “filha, fiquei orgulhoso de você ter dado atenção àquela menina nova ao invés de tê-la excluído como algumas colegas fizeram... você é solidária”, “isso mesmo filho, deixar seu primo brincar com seu videogame foi muito legal, você é um bom amigo”.
Elogios desse tipo estão fundamentados em ações reais e reforçam o comportamento da criança que tenderá a repeti-los. Isso não é “tática” paterna, é incentivo real. Por outro lado, elogiar superficialidades é uma tendência atual. “Que linda você é amor”, “acho você muito esperto meu filho”, “Como você é charmoso”, “que cabelo lindo”, “seus olhos são tão bonitos”. Elogios como esses não estão baseados em fatos, nem em comportamentos, nem em atitudes. São apenas impressões e interpretações dos adultos. Em breve, crianças como essas estarão fazendo chantagens emocionais, birras, manhas e “charminhos”. Quando adultos, não terão desenvolvido resistência à frustração e a fragilidade emocional estará presente. Homens e mulheres de personalidade forte e saudável são como carvalhos que crescem nas encostas de montanhas. Os ventos não os derrubam, pois cresceram na presença deles. São frondosos, copas grandes e o verde de suas folhas mostra vigor, pois se alimentaram da terra fértil. Que nossos filhos recebam o vento e a terra adubada por nossa postura firme e carinhosa.MARCOS MEIER é mestre em Educação, psicólogo, escritor e palestrante.
Seus textos encontram-se no site http://www.marcosmeier.com.br/

LANÇAMENTO DE LIVRO






A SYNERGIA EDITORA E
PAULO CÉSAR RIBEIRO LIMA

têm o prazer de convidar para o
lançamento do livro







PRÉ-SAL

O NOVO MARCO LEGAL E A
CAPITALIZAÇÃO DA PETROBRAS

11/08

Horário 19h30min

LOCAL Brasília
Restaurante Carpe Diem 104 Sul
Local: SCLS, 104 Bl. D Loja 01


Paulo Cesar Ribeiro Lima, Mestre e PhD, foi servidor do BC no período de 06/2002 a 05/2004 e trabalha atualmente como Consultor Legislativo na Câmara dos Deputados.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A Primeira Noite Em Paris


A primeira noite em Paris a gente nunca esquece. Lembro-me bem, foi no dia 2 de agosto de 1985, uma sexta-feira. Mas até chegar aquela sexta, houve outras sextas de muita ansiedade. Naquela época não era tão fácil viajar quanto é hoje. Não havia internet para fazer reservas de hotéis com antecedência, não havia e-mail para resolver pendências durante a viagem e, principalmente, não havia cartão de crédito para esticar o orçamento numa emergência. De parecido, somente o preço da passagem: mil dólares, há 26 anos.
Eu nunca tinha saído do Nordeste, nunca tinha andado de metrô e mal sabia conjugar o verbo to be. O cenário era cinza. Mas a vontade de viajar era tanta que eu só enxergava azul, vermelho e branco. A primeira providência foi comprar um livro das edições de ouro, “Aprenda francês em 30 dias”. Como só havia três semanas até a viagem, priorizei três seções: “no aeroporto”, “na estação de trem” e “na padaria”. Deixei de lado “no restaurante” e “no hotel”. A verba era muito curta, a conta não fecharia, eu não poderia ir a restaurantes nem me hospedar em hotéis.
O plano era ficar vários meses na Europa, até o dinheiro acabar ou o frio chegar, o que ocorresse primeiro. Naquelas circunstâncias, ainda mais, as duas necessidades básicas de um nordestino em terra estrangeira eram comer e dormir. Comer não me preocupava muito, bastaria escolher uma das duas opções: almoço ou jantar. Um bom café da manhã eliminaria o almoço. Em dias em que não houvesse hospedagem, o café não estivesse já no preço, seria o almoço a principal refeição do dia. Dado o aperto no orçamento, não poderia me hospedar todos os dias nem mesmo em albergues. Teria de alternar: noites em albergues, noites em estações de trem. Sim, tinha ouvido dizer que era muito comum mochileiros dormirem nas estações. Um dos problemas é que eu não me enquadrava nem mesmo na categoria dos mochileiros. Mas só fui descobrir isso lá. Um mochileiro, por definição, usa mochila. Não levei uma mochila nem propriamente uma mala. Levei uma espécie de sacola grande com duas alças. Duas pessoas a carregariam melhor. Tive ajuda logo no primeiro dia, vocês verão.
Um amigo, ao saber do meu plano, tentou me convencer a desistir dele. Vendo que não iria ter êxito, restou-lhe tentar me ajudar de outra forma. “Tenho uma amiga, casada com um francês, que mora em Paris. Ela é gente boa”, disse ele. Pensei: resolvido o problema da hospedagem. Havia outro problema a ser resolvido antes de partir, um doméstico: como explicar aos meus pais que eu iria viajar à França com pouco dinheiro, sem nunca ter saído do Nordeste, sem saber falar quase nada. Mas antes de contar o plano, comprei a passagem. Do contrário, correria o risco de eles me convencerem a desistir da viagem. “Mãe, a senhora não se preocupe. Tenho um amigo que tem uma amiga casada com um francês. Eles moram em Paris. Meu amigo já telefonou para eles. Vou ficar hospedado lá. É só nos primeiros dias. Depois, fico em hotéis. É tranquilo”. Ela virou-se para o meu pai e disse: “Antonio, convença esse menino a desistir disso, tá vendo que não vai dar certo?!”. Meu pai também não aprovava a ideia, mas ele não queria admitir: “Lenita, deixa o menino ir, vai ser bom pra ele, sair de casa, aprender”, disse meu pai, sem convicção.
Passou-se outra sexta-feira de muita ansiedade e chegou o dia do voo Air France Recife-Paris. Naquela época, tudo só se resolvia por Recife. Hoje, os portugueses da TAP trouxeram a ponte aérea Fortaleza-Lisboa; e os espanhóis da Ibéria, a ponte aérea Fortaleza-Madri. A expectativa era grande na chegada ao aeroporto Charles de Gaulle. Afinal, eu estava desempregado, levava pouco dinheiro e não tinha reserva de hotel, apenas o endereço da brasileira. Houvesse um Sarkozy em 1985 e eu teria sido deportado no primeiro voo. Mas o presidente era François Mitterrand, que nem exigia visto dos brasileiros. Grande Mitterrand. Seu representante na alfândega carimbou meu passaporte sem puxar conversa. Ainda bem. Logo no aeroporto, o livro “Aprenda francês em 30 dias” não surtia o efeito desejado. Eu tinha decorado umas frases; o problema era a pronúncia, que não se encaixava direito.
Como não sabia andar de metrô, fui de ônibus até o centro da cidade luz. De lá, consegui chegar a uma praça que ficava perto do apartamento da amiga do amigo, a brasileira casada com o francês. Eu carregava com dificuldade o sacolão e, na mão esquerda, levava o endereço da minha primeira hospedagem. Por sorte, a colônia portuguesa em Paris era grande nos anos 80. Um senhor veio me ajudar, um português. Ele me levou até o apartamento do casal e tocou o interfone. A brasileira atendeu, disse “pode subir”. No elevador, havia uma senhora com um cachorro. Ela não foi muito simpática. Pelo tamanho do sacolão, deve ter pensado “veio para ficar, é mais um imigrante”.
A brasileira, um pouco desconcertada, me recebeu bem. “Meu marido está no trabalho, vai demorar um pouco”, explicou. Ela tinha saudades do Brasil. Conversamos, contei as novidades. Era o governo Sarney, o assunto foi inflação. Enquanto o marido não chegava, aproveitei e pedi uma aula de como andar de metrô. Horas depois, já tarde, chegou o marido. Era bem mais velho do que ela. Começaram a conversar e, embora eu não entendesse quase nada do que diziam, percebia que o francês não via com muita simpatia a ideia de eu me hospedar lá por uns dias. Vá lá, que fosse uma noite apenas, a mais difícil de todas, a primeira e já estaria de bom tamanho.
Ela traduziu para mim: “Olha, não vai dar certo você dormir aqui, é agosto, um cunhado vem passar férias com a gente. Mas meu marido vai lhe indicar um hotel bom e barato”. O plano B era um albergue; e o C, uma estação de trem. Mudei de assunto: “Estou pensando em conhecer também Bruxelas, fica perto, queria visitar o principal ponto turístico de lá, a estátua do menino fazendo xixi, o Manneken Pis”. O francês emendou: “O trem sai da Gare du Nord. Levo você até a estação de metrô mais próxima”. Depois explicou que o bom de Bruxelas era mesmo só a Grand Place. Não deu tempo para mais nada. Ele foi logo pegando numa das alças do sacolão. “Vamos, antes que fique mais tarde”, apressou. No trajeto até a entrada da estação do metrô, ele segurava numa alça; e eu, na outra. Não houve diálogo. Nem poderia. Apontou para a boca do metrô e lá me deixou.
Já era noite quando cheguei à estação de trem. Procurei os mochileiros, queria me juntar com eles. Alguns já se preparavam para dormir na estação. Fui ficando. Amanhã procuro um albergue, pensei. A conversa parecia animada. No grupo, entre outros, havia uma moça da Dinamarca, um rapaz da Suécia, uma belga e um espanhol. Na verdade, ele não se considerava espanhol, era da Catalunha. Fui então apresentado ao sleeping bag. Pois é, todos usavam um saco de dormir. Eu tinha levado um colchonete com um lençol. E vocês precisavam ver o tamanho da pochete. Tudo ia bem até por volta das duas da manhã. Quando já estávamos acomodados, dormindo, chegaram uns seguranças da estação. Disseram que a gente não poderia dormir lá dentro. O jeito foi sair. E fui seguindo o grupo. O albergue iria ficar mesmo para a noite seguinte. Todos se deitaram na calçada, em frente à estação Gare du Nord. E lá dormimos. Pelo menos, tentamos.
De manhã bem cedo, com o sol no rosto, me despedi dos mochileiros e fui à padaria mais próxima. Depois do croissant, procurei um telefone, precisava ligar para minha mãe e contar como tinha sido minha primeira noite em Paris. Não tinha dormido bem, por óbvio, mas se eu contasse como tinha sido aquela noite, quem passaria a não dormir bem seria ela.
– A senhora se lembra do apartamento da amiga do amigo, a brasileira casada com o francês? Não quis incomodar o pessoal, achei melhor dormir num hotel.
– Meu filho, a viagem foi boa? Você dormiu bem ontem?
– Sim, muito bem. O hotel é perto da Torre Eiffel. Da janela do quarto, dá pra ver a torre. À noite, toda iluminada, ela fica muito bonita.
– Não deixe de mandar notícias!
– Fique tranquila, não se preocupe. Vou mandar um postal da torre. Um beijo na senhora e no pai.
Ainda pensei em dizer que eu tinha me hospedado no Ritz, mas ela não iria acreditar.

acoelhof – Fortaleza (acoelhof@gmail.com)