sexta-feira, 29 de junho de 2012

Claro enigma



Valor 29/06


"Não serei o poeta de um mundo caduco/ Também não cantarei o mundo futuro", diz Carlos Drummond de Andrade nos versos que abrem o poema "Mãos Dadas". "O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente."

Foi fiel ao compromisso. Drummond sempre quis escrever na clave do que lhe era contemporâneo. A afirmação é do escritor Silviano Santiago, que, ao lado do poeta Antonio Cicero, realizará na próxima Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) a primeira de uma série de conferências em homenagem ao poeta que nasceu em Itabira (MG), foi "gauche" na vida e morreu em 1987, aos 84 anos.

Do "tempo presente" Drummond foi capaz de extrair uma obra atemporal e se tornou uma das principais referências da poesia no Brasil. Para seus herdeiros, fica a proposta: 29 de junho de 2012. Onde está a poesia brasileira hoje e de que é feita? Como e por quem? E com quem, afinal, ela fala?

A venda de livros de poesia no Brasil é absolutamente tímida: não chega a 2% da venda dos livros de ficção, segundo dados da GFK levantados a pedido do Valor. É um produto comercialmente difícil, dizem representantes do mercado editorial. Em compensação, a internet oferece um novo terreno para jovens poetas e, na periferia, versos se transformam em cápsulas para mensagens de protesto.

O cenário é complexo. Quase 90 anos atrás, quando um ainda inexperiente Drummond escreveu "Os 25 Poemas da Triste Alegria", seu segundo livro de poemas (o primeiro, "Teia de Aranha", sumiu), ele sabia para onde olhar: a Semana de Arte Moderna de 1922 concentrava as atenções da vida cultural no país. Drummond enviou o material para o modernista Mário de Andrade e recebeu respostas que o ajudariam a direcionar sua obra. Ao longo do século passado, a poesia nacional ainda veria o surgimento de outros grupos, como a geração de 45, os concretistas, os neoconcretistas e os poetas marginais, cada um com suas propostas e contrapropostas.

Já no tempo presente... "é cada um com seu projeto; o bloco do eu sozinho", descreve o poeta Paulo Henriques Britto, autor de livros como "Macau", que venceu os Prêmios Portugal Telecom e Alceu Amoroso Lima em 2004, e "Formas do Nada", publicado neste ano.

"Desde os anos 90, há uma pluralidade no repertório, uma diversidade dos parâmetros", afirma Italo Moriconi, organizador da antologia "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século" e diretor da Editora Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), onde criou a revista "Ciranda da Poesia". "Cada um tem o próprio panteão de referências, que vai do rock aos quadrinhos ou à obra de Paul Valéry. Essa é a diferença fundamental para as décadas anteriores, quando havia grandes poetas referenciais."
Ainda assim, é possível buscar alguns pontos em comum na produção atual. "Acabamos nos acomodando a viajar a reboque do 'didatismo' da época das vanguardas", diz o poeta Marcos Siscar, professor da Unicamp e autor do livro "Poesia e Crise". "Se quisermos entender o que acontece à poesia, é importante problematizar o conceito de pluralidade."

Para ele, a poesia feita hoje revela "um impulso de negação do passado recente, no que ele tinha justamente de conflituoso, de comprometido, de propositivo ou, ainda, de 'autoritário'". Na prática, isso se traduz no resgate de opções literárias que antes eram evitadas e tachadas como anacrônicas. Por exemplo: escrever redondilhas e sonetos.

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/ Perdeste o senso", declama Ferreira Gullar, de 82 anos, citando o famoso soneto de Olavo Bilac (1865-1918). "Quando comecei a escrever lá em São Luís [MA], fora dos centros de cultura mais atualizados, a visão de poesia que preponderava era essa, da versificação, do parnasianismo", conta Gullar, que venceu o Jabuti no ano passado com o livro de poemas "Em Alguma Parte Alguma".

Um dia, um amigo lhe emprestou um livro de Drummond, e foi aí que Gullar descobriu a poesia moderna. Ficou chocado, diz, ao ler versos como "Ponho-me a escrever teu nome/ com letras de macarrão". E mergulhou num processo que o levaria a questionar as formas fixas e buscar novas estruturas, o que o conduziria, anos depois, às experiências concretistas.

"Ao produzir textos que, violando as regras tradicionais, não só pretendiam ser poemas, mas, efetivamente, funcionavam como verdadeiros poemas, as vanguardas superaram o fetiche que existia pelas formas fixas. Essas são as maiores lições que elas nos legaram", avalia Antonio Cicero.

Hoje, observa, as formas fixas são retomadas sem a antiga noção de obrigatoriedade. "Os poetas contemporâneos as usam como autoimposições formais arbitrárias que se contrapõem à espontaneidade criativa e colocam tensões estimulantes para a produção do poema. Elas são meios e não fins."

Essa é uma das marcas, por exemplo, da poesia de Paulo Henriques Britto, que trabalha com métrica e rimas, mas interfere nas formas fixas e usa palavras e estruturas coloquiais. O curioso é que, assim como Gullar encontrou uma alternativa às formas fixas na obra de Drummond, Britto lista entre suas influências... Drummond. Principalmente "o" Drummond de "Claro Enigma" (1951), com seus versos decassílabos: "E a máquina do mundo, repelida/ se foi miudamente recompondo,/ enquanto eu, avaliando o que perdera,/ seguia vagaroso, de mãos pensas".

Contraditório? Sim. "Para se adequar à mobilidade do indivíduo e da história no século XX, Drummond adotou linguagens poéticas descontínuas e variadas que, vistas no seu conjunto, se contradizem", diz Santiago.

Mudavam as formas e também os conteúdos. Drummond passou por uma fase "anárquico-sentimental" nos anos 30, outra cosmopolita e engajada contra a ditadura Vargas (1937-1945), dedicou-se às lembranças da infância nos volumes de "Boitempo", relaciona Santiago. Multiplicidade que se apresenta ao folhear uma antologia poética de Drummond: "José", "Nosso Tempo", "Morte do Leiteiro", "Intimação", "Lira Romantiquinha", "Nudez", "Nova Canção do Exílio"... "Um sabiá/ Na palmeira, longe./ Estas aves cantam/ Um outro canto", diz a versão de Drummond para o poema de Gonçalves Dias, que também foi atualizada, entre outros, por Murilo Mendes ("Minha terra tem macieiras da Califórnia/ Onde cantam gaturamos de Veneza"), José Paulo Paes ("… sabiá… papá… maná… sofá… sinhá… cá? bah!") e Oswald de Andrade ("Não permita Deus que eu morra / Sem que volte pra São Paulo").

O passarinho, parece, não tem inspirado muito a poesia nacional. "Há hoje uma crise do próprio sentimento de pertença", afirma Italo Moriconi. "Até os anos 90, a produção poética era marcadamente sobre o Brasil. Hoje, existe um horizonte cosmopolita."

Paulo Henriques Britto faz a mesma avaliação. "Desde o romantismo até a Tropicália, todos os movimentos brasileiros têm a necessidade de se posicionar em relação à questão nacional. É preciso mostrar que a gente assimilou a lição das vanguardas na França. No caso dos concretistas, é preciso mostrar que a gente faz um produto moderno que nem Brasília e a bossa nova. No caso da Tropicália, é preciso mostrar que a gente não tem medo da cultura pop americana. Essa necessidade, que, na minha geração, que está na faixa dos 50, já perde força, não tem sentido para a geração mais jovem, na faixa dos 30." Além disso, compara Britto, os novos poetas são poliglotas, adeptos do verso livre, misturam cultura pop com elevada e escrevem, com frequência, sobre viagens.

"Nada bate um rilke shake / no quesito anti-heartache", escreve a poeta Angélica Freitas em "Rilke Shake", poema que dá nome a seu livro de estreia, que integra a coleção "Ás de Colete", coordenada pelo poeta Carlito Azevedo e publicada pela Cosac Naify e pela 7Letras. A mistura de idiomas, diz Angélica, não vem de uma proposta planejada. "Saiu assim", diz ela.

Assim como Gullar se surpreendeu com Drummond na juventude, Angélica se lembra do impacto que sentiu quando, aos 15 anos, leu Ana Cristina Cesar (1952-1983). "A minha reação foi: dá para escrever desse jeito, então? 'As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.' Você lê isso e gera estranhamento. É uma coisa que aparentemente não seria vista como poesia."

A preocupação com a "brasilidade" não está, de fato, entre suas preocupações, conta Angélica. "Mas isso não faz parte, de modo geral, da minha vida. Eu não acordo e penso 'sou brasileira' ou 'sou gaúcha'", diz. "A grande questão é: como se pode escrever poesia ainda, o que eu consigo fazer com o meu repertório de vivências, de leitura, que seja minimamente relevante, e não só um exercício de beletrismo, uma pirueta verbal."

Para Santiago, esse cenário está relacionado também ao processo de democratização do país. "Hoje, a geração dos mais velhos é a dos que tiveram o batismo poético na época das lutas contra a ditadura. Todos padeceram a intromissão da luta política na sua poesia. Começaram pela coleção 'Violão de Rua', da Civilização Brasileira, na qual a linguagem poética recebia a tintura populista e, nos piores casos, demagógica." Já a geração seguinte, diz, viu aflorar bons tradutores de poesia estrangeira. "A tradução foi o modo como Ana Cristina Cesar e Paulo Leminski, entre outros, se desviaram da tradição recente. Escrevem dentro de um repertório atual e cosmopolita, independentemente dos problemas políticos nacionais." Porém, brinca Santiago, quem achar que não tem nada a ver com a questão nacional é "ingênuo e fanfarrão". "Tanto melhor para ele, tanto pior para a obra que quer realizar."

Gullar identifica outro risco para a poesia atual: uma tendência ao hermetismo. "Isso é algo que não acho bom e não tem nada a ver com Drummond, com Manuel Bandeira... Sinceramente: se eu, que li e estudei poesia a vida inteira, não consigo entender, para quem eles estão escrevendo aquilo?", questiona. "Não vou dizer o que alguém pode ou não fazer. Mas pergunto: para quê? O sentido da vida é o outro, o da literatura também."

Com ou sem hermetismo, é disseminada a ideia de que a poesia é um gênero "difícil". E isso está presente até entre quem opta por trabalhar com literatura, conta Marcos Siscar, que tem percebido cada vez mais alunos de letras com uma atitude defensiva em relação a poemas. "Eu me pergunto que tipo de educação poética a escola lhes deu. Em poucos anos, serão eles os encarregados da formação de novos leitores."

Marcas do tal "tempo presente", como a busca por instantaneidade e eficiência, também entram em conflito com a poesia, afirma Antonio Cicero. Em uma sociedade multitarefas - e multiatarefada -, a poesia exige tempo e concentração. "No entanto, parece que, justamente por isso, é ela que pode nos livrar, ao menos temporariamente, dessa cadeia, proporcionando acesso a outra temporalidade. Ela representa uma alternativa à vida escravizada ao princípio do desempenho."

O fato é que a poesia não está no top 5 de gêneros favoritos do brasileiro ("Bíblia", livros didáticos, romances, livros religiosos e contos, nessa ordem, segundo a mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil). Ela aparece em sétimo lugar, logo atrás de literatura infantil. E, nas pesquisas de mercado feitas pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), a poesia nem aparece como categoria específica.

A pedido do Valor, a GFK, que acaba de divulgar dados preliminares do serviço Painel do Livro, sobre venda de livros no país, fez um recorte sobre poesia. Segundo a consultoria, as obras de ficção correspondem a 23% das vendas (a maioria, 61%, é de não ficção). Considere só o grupo dos livros de ficção: a venda de poesia corresponde a 1,8%.

É uma proporção parecida com a de títulos de poesia dentro da Livraria Cultura, por exemplo. Dos 25 mil títulos que há numa loja da rede, em média, cerca de 500 são de poesia. O que vende, diz o gerente de vendas da rede, Ricardo Schil, são autores consagrados, como Drummond, Bandeira e Fernando Pessoa. "Tirando os clássicos, o grande nome é Manoel de Barros, que tem um resultado comercial impressionantemente bom."

"Poesia Completa", de Manoel de Barros, já vendeu 25 mil exemplares desde que foi lançado, em 2010. "Escritos em Verbal de Ave" foi lançado em dezembro, com 10 mil exemplares, e uma reimpressão de mais 7 mil está sendo preparada. "Coisa raríssima [em poesia]", comenta Pascoal Soto, diretor no país da editora portuguesa LeYa. "Na ficção, você termina um livro e quer outro. O livro de poesia, você relê. A fidelidade do leitor para a obra de um poeta faz com que ele não experimente tanto."

"Poesia é difícil de vender", afirma Marta Garcia, editora da Companhia das Letras. E isso se reflete nas tiragens: enquanto um livro de prosa de um jovem escritor tem tiragem inicial de 3 mil a 5 mil exemplares na editora, a de um jovem poeta tem 2 mil. Mas, ainda que a poesia não seja carro-chefe em termos comerciais, ela confere "sucesso de estima", diz Marta.

Um exemplo disso foi a boa repercussão que a editora teve no ano passado com o lançamento do livro "Poemas" da polonesa Wislawa Szymborska, Prêmio Nobel de Literatura de 1996. A partir daí, conta Marta, a empresa decidiu reeditar sua coleção de poesia traduzida, lançada no início dos anos 90. Dessa coleção já foram relançados "Omeros", de Derek Walcott, e "Poemas", de Rainer Maria Rilke.

Em relação aos livros de poesia brasileira contemporânea, a editora adotou uma estratégia aparentemente simples: passou a dar às obras o mesmo tratamento visual, o que confere uma unidade, diz Marta, citando livros de jovens autores, como "Da Arte das Armadilhas", de Ana Martins Marques, e "Esquimó", de Fabrício Corsaletti.

A Companhia das Letras tem, ainda, os direitos sobre a obra de Vinicius de Moraes e, desde o ano passado, os da obra de Drummond. Dele a editora está lançando "José" (3 mil exemplares), "As Impurezas do Branco" (10 mil), "Antologia Poética" (10 mil) e "Sentimento do Mundo" (25 mil). "Vinicius e Drummond são outra história. Seus livros são muito lidos nas escolas", diz Marta. "Quando um livro entra nos programas de leitura do governo, há muita diferença na tiragem."

A poesia tem presença um pouco mais forte nas compras governamentais do que nas livrarias. No ano passado, o Programa Nacional Biblioteca da Escola adquiriu, para o ensino médio, 1.723.632 livros - dos 149 títulos selecionados, 12 eram de poesia, como "Navios Negreiros", de Castro Alves, uma antologia de João Cabral de Melo Neto e outra voltada para a poesia contemporânea. Para o ensino fundamental, foram 3.861.782 exemplares; dos 149 livros, 14 de poesia.

"Poesia para criança é um gênero muito comprado pelo governo", diz Soto, da LeYa, que, em 1992, quando era editor-assistente na Moderna, sugeriu a Manoel de Barros que escrevesse para o público infantojuvenil. O poeta, conta Soto, respondeu que nunca havia pensado no assunto e não escrevia por encomenda. Continuaram se correspondendo e, cerca de sete anos depois, o poeta enviou a Soto o poema "O Menino Que Carregava Água na Peneira". Soto, que havia acabado de ter uma filha, pediu um poema para a menina. "Ele ficou bravo. Disse: 'Lembre-se de que não escrevo por encomenda, mas lá vai'. E mandou o poema 'Menina Avoada'." Era a origem de "Exercícios de Ser Criança".

Ferreira Gullar também atendeu a esse apelo e, em 2000, lançou "Um Gato Chamado Gatinho". "Comecei a fazer para mim mesmo poemas sobre meu gato. Um dia, recebi um telefonema da editora pedindo um livro para crianças e ofereci esse", lembra. Depois, vieram um livro sobre lembranças da infância, outro de poesias e um de colagens. "Uma editora viu as colagens aqui em casa, disse que era interessante e sugeriu fazermos um livro", diz Gullar. "É algo que as editoras solicitam. Senão, eu não teria ido por aí."

De olho no mesmo público, a José Olympio planeja lançar um livro com poemas do modernista Raul Bopp (1898-1984). "Ele não escreveu para crianças, mas selecionamos poemas que podem ser lidos por elas", afirma sua gerente editorial, Maria Amélia Mello.

Para nosso hipotético poeta, porém, vale lembrar que, mesmo com o aquecimento do mercado editorial no Brasil, o acesso às grandes editoras ainda é difícil. "Elas estão muito mais pressionadas pelas vendas, mais restritas aos consagrados. As pequenas são o celeiro dos novos poetas", diz Soto.

A boa notícia é que, desde a década de 90, ter seu livro publicado se tornou um processo mais fácil no Brasil. O barateamento de ferramentas de edição e publicação levou ao surgimento de editoras que publicavam pequenas tiragens de obras pagas pelos próprios autores, com qualidade quase industrial.

A má é que os poetas logo entraram em contato com uma conhecida máxima econômica: quanto maior a oferta, menor a demanda. E o gargalo apareceu nas livrarias.

"É um movimento de mercado: há uma oferta muito grande que as livrarias não conseguem absorver", conta Jorge Viveiros de Castro, dono da editora 7Letras, uma das pioneiras nesse setor. "As editoras maiores têm um giro rápido, é um mercado muito alimentado pela novidade. Com tiragem menor, você nem consegue aparecer", diz Castro, que planeja, para agosto, a abertura de uma livraria própria da 7Letras em Ipanema, zona sul do Rio. Ao mesmo tempo, como o próprio Castro ressalta, as editoras menores podem se beneficiar muito do comércio eletrônico.

Mas é do outro lado do balcão, ou do poema, que estão as expectativas em relação à internet. "Nunca antes o poeta esteve tão alicerçado pelos meios. O Facebook e o Twitter facilitam a divulgação da poesia", afirma Fabrício Carpinejar, que dividirá a mesa Vidas em Verso, na Flip, com a poeta escocesa Jackie Kay. "A internet é mais propícia à leitura de poemas que de um romance, por exemplo. E o poema, assim como o texto digital, lida com a ideia da descontinuidade", observa o poeta, que lançou em 2009 o livro www.twit ter.com/carpinejar, com frases que havia divulgado por meio da rede social. "O poeta, hoje, precisa ter uma vida digital, além da impressa. A questão é o excesso de visibilidade. Será que Drummond hoje conseguiria sobreviver ao tópico no Twitter?"

Para Moriconi, a questão digital pode vir a ser o elemento que define uma preocupação comum na poesia contemporânea. "O suporte digital cria um espaço outro, que traz condições de existência para o poema para além do livro", diz, citando "Enter", antologia digital desenvolvida por Heloisa Buarque de Holanda, e o site "As Escolhas Afectivas", que se define como uma "curadoria autogestionada de poesia brasileira".

"A internet me parece um espaço de experimentação dos modos da interação autor/obra/leitor e afeta, sem dúvida, os três pontos da cadeia, sobretudo acelera-lhe o trânsito, desloca suas finalidades", diz Marcos Siscar. Mas, para ele, do ponto de vista da criação poética, as alterações ocorridas até agora ainda não são decisivas.

Paralelamente ao mundo digital, os bairros de periferia também têm sido palco de um burburinho poético, aponta Frederico Barbosa, diretor da Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo. A instituição fez um levantamento de saraus de poesia na cidade e, após excluir aqueles em que a programação era basicamente de hip-hop, chegou a 80 eventos - dos quais mais da metade ocorre na periferia. Desses, um dos que têm maior visibilidade é o Cooperifa, criado em 2001 e realizado no Campo Limpo, na zona sul.

"A poesia está mudando de mãos. Não é nem a classe C que está chegando à poesia, são a D e a E", diz Barbosa, que associa o processo a mudanças socioeconômicas que vêm ocorrendo no Brasil nas últimas duas décadas, como o aumento da escolaridade e o maior acesso aos bens culturais. "Na década de 40, todo mundo que fazia poesia se conhecia. Nos anos 80, quando comecei, eu também sabia quem era quem. Hoje, não sei quem são os poetas deste país."

Com um discurso relacionado principalmente a denúncias sociais, esses poetas encontram nos versos um instrumento capaz de conferir impacto a suas mensagens. "Claro que tem a questão da qualidade. É uma poesia rudimentar, com aquelas rimas em 'ar', em 'ão'. Mas é uma produção que está cada vez melhor", constata Barbosa, que acaba de renovar o contrato com o governo do Estado para administrar a Casa das Rosas por mais quatro anos. De acordo com ele, a meta para esse período é transformar o espaço num centro de apoio a quem quer escrever, com cursos sobre literatura e informações sobre como publicar. "Acredito que poesia pode ser aprendida."



Drummond se dispõe a ensinar: "Penetra surdamente no reino das palavras / Lá estão os poemas que esperam ser escritos".

terça-feira, 29 de maio de 2012

Veja a Veja

Por Adriano Rubim

Uma parte do que a Veja publica é positiva, pois desmonta esquemas criminosos relevantes. Mas a equação não tem apenas esse lado. Cabe verificar os tratos que a revista faz para obter as denúncias que publica.


Quanto a isso, pode ser que ela tenha deixado de publicar coisas negativas que conhecia sobre suas fontes. Exemplo: é pouco provável que Veja não conhecesse a ilegalidade das operações de Cachoeira e as ligações dele com Demóstenes.Mas mesmo assim publicou matéria muito favorável a ele, chamando-o de mosqueteiro do combate a corrupção, nunca tendo dado a conhecimento de seus leitores as possíveis sombras que certamente sabia pairarem sobre Demóstenes.

Desse modo, Veja pode ter omitido informações relevantes de que tinha conhecimento, para preservar relacionamentos junto a fontes, ou por outras razões ainda menos transparentes.

Isso permitiu ou facilitou o avanço de Demóstenes na política e de Cachoeira na contravenção até níveis que não teriam se materializado se a revista tivesse divulgado problemas sabidos por ela sobre suas fontes.

A divulgação de um lado apenas de esquemas criminosos conhecidos pode, portanto, ter estimulado fortemente grupos de ação ilegal que se fizeram hegemônicos em Goiás e sabe-se lá onde mais no Brasil, com grandes prejuízos para a coletividade.

Assim, o problema não e o que Veja publica, mas o que deixa de publicar para obter o que publica. Importam também as razões e alianças que estão por traz disso. Esse fator e que precisa ser tornado transparente.

A hipótese de perseguição contra a Veja e a imprensa, para aliviar o mensalão, é algo que a revista levanta pra desviar o foco de suspeitas específicas que lhe atormentam. Isso pode ser mera manobra diversionista. Não se pode aceitar essa hilação como justificativa para deixar de investigar os fatos.

Da investigação das suspeitas específicas contra agentes graduados da revista pode se derivar a confirmação ou negação dos indícios de relacionamento indevido entre ela, Cachoeira e Demóstenes. Essa investigação deve ser de interesse inclusive da Veja, pois se ela for inocente ruirão as suspeitas levantadas.

Destaque-se: se ela for inocente!

Porque se não for, tentará de fato bloquear a investigação propriamente dita. Aliás, parece que tem tentado, o que tende a tornar ainda mais necessária a investigação.


Se por causa da manobra diversionista acima citada eu aceito a hipótese de não investigar a Veja, sobre cujas acões há indícios de irregularidade, inclusive gravações com autorização judicial, tenho que aceitar também a desculpa dada por Lula pro mensalão, pois ele diz que foi tentativa de golpe, arapuca da oposição, e por aí vai.

Nenhuma das duas manobras diversionistas acima deve ser aceita sem a necessária investigação. O mensalão está sendo investigado. O caso da Veja também precisa ser.

De mais a mais, quando Veja diz que as afirmações de conluio com Cachoeira e Demóstenes são cortina de fumaça pra aliviar o mensalão, um intérprete atento pode identificar que, na verdade, existe mais do que uma única cortina de fumaça nisso...

Com tanta fumaça, e vinda de tantos lados, só posso a desejar que os ventos de uma profunda investigação sejam lançados nessa história.

Ar puro ajuda a ver e entender melhor as coisas.

Penso que a imprensa faz e deve fazer, sim, investigação. Aliás, esse é um dos mais nobres papéis dela. Não raro a imprensa consegue ser até mais eficaz que a polícia na ação investigativa.

Se uma investigação é policialesca ou não, depende de qual sentido se atribui à palavra policialesca. Como não consigo delinear perfeitamente tal sentido, opto por examinar a questão sob um prisma mais objetivo.

Sob uma formulação mais objetiva, o que é errado é a imprensa conhecer, em sua investigação policialesca ou não, uma série de irregularidades, mas deliberadamente omitir parte delas, divulgando apenas (e convenientemente) o que se apura contra um lado.

Se fizer isso, a imprensa torna-se parte da engrenagem criminosa cujos malfeitos são acobertados e estimula a ação dessa engrenagem. E o faz deliberadamente, com vistas a atingir objetivos que podem ser os mais diversos, mas que certamente não se confundem com o interesse público, já que este não pode ser defendido mediante a proteção de facções criminosas.

Desse modo, em minha opinião, a imprensa está, sim, submetida a balizadores éticos em sua ação investigativa, não podendo defender ou proteger (via acobertamento) o lado de nenhum grupo criminoso, por exemplo, ao conhecer (e omitir do público) fatos que contra ele existam. Em poucas palavras: o acobertamento de crimes que tenham sido identificados não deve ser aceito na imprensa.

Exigir da imprensa esse norte ético não se confunde com cercear a liberdade de imprensa. É antes o contrário. É fortalecer a liberdade da imprensa em sua finalidade última, que é o oferecimento de informações fidedignas e tão imparciais quanto possível ao cidadão. Se admitimos que a imprensa selecione os bandidos que vai denunciar e acoberte os que não quer denunciar, aceitamos que a informação ao público seja parcial (nos dois sentidos), o que acaba por corroer um dos fundamentos da democracia; repita-se: o oferecimento de informações tão amplas, profundas e imparciais quanto possível ao cidadão.

Tampouco a exigência de balizadores éticos da imprensa a torna ligada a governos ou oposições. Pelo contrário, tais balizadores tendem a tornar a imprensa mais ligada apenas à materialidade dos fatos, e quem pauta a divulgação de notícias apenas pelos fatos conhecidos (todos eles e não parte deles) tem menos risco de ser amestrável pelo governo, pela oposição ou por quem quer que seja.

Portanto, a exigência de padrões éticos da imprensa é que gera sua real independência e torna possível alcançar um dos objetivos principais da democracia; a oferta de informações profundas, completas e imparciais ao cidadão, na máxima medida possível.

Quanto ao Collor, que foi identificado como um integrante do lado negro da força (eu mesmo fui um dos jovens cara-pintadas que fizeram pressão para derrubá-lo), o que se tem nele é uma expressão gritante das contradições que tornam surrealista a vida no País. Ele, que foi elevado à condição de campeão moral da direita contra Lula, primeiro deixou em vexame seus apoiadores com as irregularidades que depois surgiram, e agora se alia à esquerda para atacar um dos veículos mais identificados com a direita (a Veja).

Realmente, Collor está pra lá de uma "metamorfose ambulante" (Lula) e de um "esqueçam o que escrevi" (FHC).

O fato é que Collor foi apenas o primeiro de uma lista de anjos decaídos da direita. Depois dele vieram diversos, como o Arruda e agora o Demóstenes. Isso fragiliza a essência do discurso calcado em fatores morais que a oposição ao PT teima em utilizar. Assim como causa asco em alguns ver o Collor atuando como paladino da justiça, boa parte da população também não engole um discurso moralizante feito por pessoas como Arruda e Demóstenes.

É por isso que, em minha opinião, a oposição ao PT precisaria arrumar outro discurso para se construir como alternativa de poder. Ou arruma outro discurso ou arruma outros defensores desse discurso da moral. Defensores que de fato tenham a moral que falta a Collor em seu combate contra a Veja e em muitos da oposição, que se dizem grandes moralizadores, mas à vera têm é rabo de palha.

Aliás, bandidos não faltam também pras bandas do PT, só que ele, conhecendo bem suas (digamos) "limitações", adotou um discurso que não se liga a uma formulação facilmente atacável. Foi pelo lado da justiça social, da defesa do crescimento e do emprego, etc. Fazendo assim, escapou da armadilha de depender de um discurso que possa ser a toda hora facilmente desmontado.

Nessa linha, a oposição é hoje muito mais uma contradição à la Collor que o governo. Parece que o Aécio notou esse problema e está buscando um novo discurso, voltado para a eficiência administrativa e tal. Mas aí ele se complicou ao pedir (como de fato pediu e conseguiu) um emprego para uma prima do Cachoeira, a pedido de Demóstenes...

Tributo à Legião Urbana

Valor 29/05

As gravações do "MTV ao Vivo - Tributo à Legião Urbana", que acontecem hoje e amanhã no Espaço das Américas, em São Paulo, tendo à frente o guitarrista Dado Villa-Lobos, o baterista Marcelo Bonfá e o ator Wagner Moura, suscitam uma série de reflexões acerca de um dos maiores fenômenos da música jovem brasileira. Afinal, 16 anos após o término da banda de Brasília - anunciado semanas após a morte do cantor e compositor Renato Russo (1960-1996)-, o grupo continua a exercer um imenso fascínio.

Está em livros (por exemplo, "Renato Russo: o Filho da Revolução", de Carlos Marcelo, e "Como se Não Houvesse Amanhã - 20 Contos Inspirados em Músicas da Legião Urbana", vários autores), peças de teatro ("Renato Russo", musical estrelado por Bruce Gomlevsky e prêmio Shell carioca de melhor direção em 2006), produções cinematográficas ficcionais (os inéditos "Somos Tão Jovens", de Antonio Carlos Fontoura, e "Faroeste Caboclo", de René Sampaio) e documentários (caso de "Rock Brasília - A Era de Ouro", de Vladimir Carvalho).

Além de continuar em franca execução nas rádios e a gerar elevados dividendos em tempos de indústria fonográfica em frangalhos - os oito discos de estúdio foram remasterizados no estúdio Abbey Road, em Londres, em 2010, e lançados em três formatos distintos: digipack individual, caixa de edição limitada e vinil, todos acrescidos de encartes com textos e fotos inéditas. Recentemente, chegou às bancas de jornal e livrarias uma coleção com 15 títulos, entre discos ao vivo e o "Acústico MTV", gravado em 1992, e editado em 1999.

Segundo a EMI Music, gravadora do grupo, a Legião Urbana já vendeu 15 milhões de produtos relacionados. Só em 2011, o público levou três milhões de álbuns para casa. "Hoje tenho a clara noção de que entramos no imaginário das pessoas e temos enorme contribuição na cultura musical do Brasil, uma onda mítica interessante. Realizamos nosso sonho adolescente de banda de rock", diz Dado Villa-Lobos.

Todo esse poder de fogo legionário em plena década de 10 dos anos 2000 é sintoma de que a banda é a sobrevivente exclusiva - sobretudo, comercialmente falando - da geração dos anos 1980. Um tempo de redemocratização em que o rock era o som das massas - lembremos do álbum de figurinhas da banda RPM, que, por sua vez, teve a própria gravadora, a RPM Discos. Com dinheiro em caixa, a indústria musical brasileira finalmente tinha encontrado um formato. E a grande mídia, um manancial de personagens e assuntos. Um contexto sociopolítico riquíssimo, um "zeitgeist" tropical tão rijo que os mais desavisados têm a impressão de que o rock nacional só surgiu nos anos 1980.

Os protagonistas desse boom oitentista, no entanto, caíram num certo oblívio nos anos 1990 e 2000. Algo que não acometeu, por exemplo, os tropicalistas, que, no final dos anos 1960, retomaram os preceitos da antropofagia modernista de 1922. "A tropicália se articulou para ocupar seu espaço. A geração 80 não. O que houve, no segundo caso, foi uma oferta generosa de oportunidades. Revistas, jornais, rádios etc., todos mais ou menos irmanados na função de estabelecer uma mudança geracional que colocasse o Brasil em equivalência com o que acontecia no mundo", diz o jornalista e escritor Ricardo Alexandre, autor de "Dias de Luta: O Rock e o Brasil dos Anos 80". "A questão é que a mudança geracional também foi implacável com a turma dos anos 80. Mas, pensando bem, muita gente avançou até os anos 2000. A questão é saber se uma geração que aprendeu a conviver com respostas de um mercado tão aquecido tem interesse em continuar produzindo num mercado tão reduzido. Pelo visto, não, né?"

Jornalista, escritor, agitador cultural e apresentador do projeto PósTV, Alex Antunes, um dos primeiros amigos que Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá fizeram em São Paulo, sente-se aliviado com o obscurantismo reinante. "Eu confesso que respiro aliviado com esse ostracismo. A produção da geração 80 é muitíssimo inferior à dos anos 70, com a tropicália, Mutantes, Secos & Molhados, Novos Baianos e Raul Seixas", diz Antunes, testemunha do show de estreia dos legionários na capital paulistana, na extinta casa noturna Napalm, em 1983. "Mesmo a Legião estava empenhada em decalcar coisas gringas nos arranjos, como The Smiths e U2. Acho isso vergonhoso, uma limitação que a perspectiva histórica está se encarregando de corrigir. Sempre me dava desespero quando as votações de melhores do rock brasileiro colocavam os oitentistas coxinhas no mesmo patamar dos velhos malucos."

O tal ostracismo, detalhe, chegou a alguém que integrou a banda. Coincidentemente, as primeiras informações do tributo foram veiculadas em paralelo à exibição de duas reportagens do programa "Domingo Espetacular", da Rede Record, onde o ex-baixista Renato Rocha, o Negrete, que atuou na Legião Urbana entre 1984 e 1988, aparecia como morador de rua no Rio de Janeiro.

Tema de debates acalorados nas redes sociais, o tributo à Legião Urbana será, de acordo com o diretor de programação da MTV, Zico Góes, um marco. "Juntar Wagner com os integrantes da Legião, que sempre foi adorada pela MTV e pela nossa audiência, nos pareceu incrível. Roteiro e direção de arte estão nas mãos do Felipe Hirsch [premiado diretor de teatro]", diz.

"Os ensaios estão ótimos, a banda está segura do desafio de tocar nossas composições. Wagner está sensacional, conhecedor do repertório como poucos. Estamos nos divertindo de verdade", conta Villa-Lobos. "Além disso, temos outros novos músicos nos ajudando, como o Rodrigo Favaro, baixista da Orquestra Sinfônica Brasileira", diz Marcelo Bonfá. Um convidado internacional também fará parte da celebração: o guitarrista Andy Gill, da banda inglesa Gang of Four, uma das prediletas da turma.

"Aqueles barulhinhos harmônicos da guitarra de 'Ainda É Cedo' têm mais a ver com o Andy Gill do que o The Edge, do U2", conta Villa-Lobos. "Foi uma grande surpresa ele ter aceitado o convite, vir lá do outro lado do mundo para participar do show. É uma honra, porque ele é uma grande referência para mim desde sempre."

Já Wagner Moura, em vídeo promocional, afirma: "Harold Bloom [crítico literário] diz que o mundo não seria o que é sem William Shakespeare. A minha geração no Brasil não seria o que é sem as músicas da Legião. Me sinto como um fã escolhido para estar no palco com caras tão importantes." Enquanto isso, um satírico Renato Russo, no álbum duplo ao vivo "Como se Diz Eu Te Amo", de 2001 - póstumo, portanto -, afirma: "Eu adoro ser idolatrado. Me amem". Dito e feito.



"MTV ao Vivo - Tributo à Legião Urbana"

Onde: Espaço das Américas (rua Tagipurú, 795, SP); hoje e amanhã, às 21h; R$ 200.